O trabalho por turnos e o seu impacto na saúde do trabalhador

Exploramos os condicionalismos do trabalho por turnos, o seu impacto na saúde dos trabalhadores e as medidas preventivas essenciais para assegurar ambientes de trabalho seguros e saudáveis.

· 7 minutos · Segurança no Trabalho

O trabalho por turnos e o seu impacto na saúde do trabalhador

No atual mercado laboral, a adaptação tem sido uma constante, não só no que diz respeito à expertise e formação dos indivíduos, mas também aos requisitos de disponibilidade e ao fator tempo.

Este último tem vindo a ganhar relevância em setores como o dos hidrocarbonetos, mineração, infraestruturas de grandes projetos (hidroelétricas ou instalação de redes de energia, entre outros). Duas das principais razões pelas quais muitas empresas nestes setores económicos exigem uma total disponibilidade do seu talento humano por períodos determinados prendem-se com a localização geográfica e a natureza da atividade.

Características do trabalho por turnos

Os turnos rotativos são uma estratégia utilizada pelas empresas para otimizar a operação. De acordo com as necessidades e a estrutura da organização, podem definir-se turnos descontínuos, semicontínuos e contínuos. A principal diferença reside na continuidade da operação.

De acordo com o enquadramento legal português delineado na Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro, que estabelece o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho, alterada pela Lei n.º 3/2014, de 28 de janeiro, a organização do tempo de trabalho deve salvaguardar a saúde e segurança dos trabalhadores. Contudo, em setores específicos, observam-se turnos 24/7, 14/7, 30/10, e outras configurações que dependem diretamente das necessidades da empresa.

Estes turnos consistem num determinado número de dias consecutivos de trabalho, incluindo fins de semana e feriados, seguidos por um período de descanso. Infelizmente, estes períodos de descanso podem ser interrompidos devido a questões técnicas ou alterações no planeamento que exigem o regresso do colaborador ao serviço.

Esta modalidade, além de frequentemente não ter horários fixos, apresenta fatores relevantes que geram um alto impacto nos indivíduos, podendo aumentar o nível de risco em cada tarefa. Alguns destes fatores estão associados à convivência, alimentação, áreas de trabalho, zonas de influência e mudanças repentinas na jornada laboral, entre outras situações que podem surgir durante o turno.

É fundamental considerar e avaliar as condições emocionais dos indivíduos sujeitos a este tipo de turnos para minimizar e controlar os riscos associados a este modelo de trabalho.

Impacto na saúde do trabalhador

O trabalho por turnos implica que o trabalhador tenha de modificar as suas rotinas pessoais e sociais para se ajustar à dinâmica laboral. Este esforço extra de adaptação pode representar um elevado risco psicossocial. Alguns aspetos importantes relacionados com o trabalho por turnos nos setores económicos mencionados são:

Como consequência, o trabalhador pode experienciar alterações do sono e falta de descanso, o que pode levar a fadiga crónica, stress crónico, síndrome de burnout ou, nos casos mais graves, perturbações de ansiedade e depressão.

Além disso, esta modalidade de trabalho pode gerar alterações na dinâmica de casal, familiar e social, perturbações alimentares e físicas, como perturbações gastrointestinais ou reprodutivas (alterações no ciclo menstrual, entre outras).

Os trabalhadores expostos a turnos noturnos podem aumentar o consumo de café, tabaco e substâncias excitantes para o sistema nervoso central, a fim de combater o cansaço e a baixa produtividade, o que pode desencadear problemas de saúde física.

Todos os fatores que representam risco para o indivíduo devem ser considerados, não só pelo empregador, mas também pelo empregado. Independentemente dos benefícios económicos ou profissionais percebidos, estes fatores podem gerar consequências significativas a curto, médio e longo prazo, tanto para o trabalhador como para a empresa. É crucial criar estratégias com uma abordagem preventiva, onde cada um destes fatores de risco seja avaliado, analisado e controlado.

Medidas preventivas

Conclusão

Embora muitos indivíduos possuam características sociodemográficas semelhantes, nem todos têm as mesmas estratégias de coping para enfrentar os desafios associados a estes turnos. Por isso, é recomendável que os empregadores realizem uma análise abrangente que vá além da expertise e formação das pessoas. Da mesma forma, é importante que os empregados ponderem as características deste tipo de trabalho e avaliem os diferentes fatores, de forma a que este estilo de vida profissional se revele benéfico em todas as áreas da sua vida.

Escrito por Celso Guedes

CEO

Celso Guedes é CEO da Quirónprevención Portugal, onde lidera a estratégia de crescimento e a aposta na formação profissional certificada. Com vasta experiência em prevenção de riscos e saúde ocupacional, dedica-se a tornar o cumprimento das obrigações legais das empresas mais simples, digital e acessível.