Impacto na Saúde da Exposição a Ecrãs de Computador
Este artigo aborda os riscos para a saúde decorrentes da exposição a ecrãs de computador, como fadiga visual, física e mental, e apresenta estratégias eficazes de prevenção e adaptação ao enquadramento legal português.
· 7 minutos · Segurança no Trabalho
O trabalho com ecrãs de visualização de dados (EVD) acarreta a exposição a riscos profissionais que podem provocar patologias amplamente estudadas nos seus utilizadores. A entidade empregadora, com o apoio do seu serviço de segurança e saúde no trabalho, tem o dever de analisar e adaptar os postos de trabalho com riscos que possam afetar a saúde dos trabalhadores ao seu serviço. O uso de equipamentos informáticos é hoje transversal a todas as atividades produtivas, sendo o setor terciário aquele onde se verifica o maior número de aplicações informáticas e, consequentemente, uma maior exposição por parte dos trabalhadores de escritórios e gabinetes.
Fatores de Risco
Os fatores de risco associados à exposição a EVD podem ser resumidos e agrupados em:
- Relacionados com o equipamento: ecrã, teclado, documentos, mesa, cadeira, cabos, software.
- Relacionados com o ambiente: espaço, iluminação, reflexos e encandeamento, calor, emissões, humidade, ruído.
- Relacionados com a organização do trabalho: formação dos trabalhadores, desenvolvimento do trabalho diário, proteção dos olhos e da visão dos trabalhadores, postura no posto de trabalho.
Efeitos Mais Frequentes
Os efeitos mais comuns podem ser agrupados em:
Fadiga Visual
É uma alteração funcional e reversível, causada pelo excesso de exigência dos reflexos pupilares e de acomodação-convergência, necessários para focar a imagem na retina. Afeta entre 10% a 40% dos trabalhadores expostos a EVD diariamente.
Os sintomas da fadiga visual podem ser agrupados em três níveis:
- Desconforto ocular: sensação de peso nos olhos, tensão ocular, pálpebras pesadas, comichão e ardor, necessidade de coçar os olhos, sonolência, lacrimejo, olhos secos, aumento do pestanejo, vermelhidão conjuntival.
- Perturbações visuais: caracteres do ecrã desfocados, dificuldade em focar objetos, imagens desfocadas ou duplicadas, fotofobia, problemas de acomodação-convergência devido à necessidade contínua de adaptação do foco.
- Perturbações extraoculares: dores de cabeça, vertigens ou tonturas (especialmente em casos de défices visuais mal corrigidos), ansiedade, epilepsia fotossensível, adoção inconsciente de uma postura para evitar reflexos, desconforto na nuca e coluna vertebral devido à distância excessiva entre os olhos e o texto a ler.
Fadiga Física
Comporta a diminuição da capacidade física do indivíduo devido à tensão muscular, ou a uma tensão excessiva do organismo no seu conjunto, ou ainda a um esforço excessivo do sistema psicomotor.
Os principais sintomas incluem:
- Dores na coluna vertebral (pescoço, nuca, coluna dorsal ou lombar), geralmente no final da jornada de trabalho.
- Outros sintomas, como contraturas, formigueiros, cansaço, síndrome do cotovelo de tenista, síndrome do túnel cárpico, tendinite de Quervain.
A causa está geralmente associada à manutenção de posturas estáticas em frente ao ecrã, sem esquecer que estes maus hábitos posturais podem ser originados por anomalias visuais não corrigidas.
Fadiga Mental
Causada pelo esforço intelectual excessivo, pode manifestar-se por:
- Perturbações neurovegetativas e/ou psicossomáticas: dores de cabeça, palpitações, cansaço, tonturas, tremores, sudação, diarreia, obstipação, nervosismo.
- Perturbações psíquicas: ansiedade, irritabilidade, estados depressivos, dificuldade de concentração.
- Perturbações do sono: pesadelos, insónias, sono agitado.
Alterações Cutâneas
Foram descritos casos de irritação da pele ou reações alérgicas, predominantes na face e pescoço, e por vezes nas mãos, com um componente de predisposição pessoal e associadas ao ambiente seco ou à eletricidade estática gerada pelo ecrã. Outro fenómeno detetado nos últimos anos foi a Lipoatrofia Semicircular, atribuída às condições ambientais e ergonómicas dos postos de trabalho, geralmente em escritórios.
Radiações Emitidas por EVD e Gravidez
Os estudos realizados não encontraram qualquer evidência científica de ligação entre abortos espontâneos em mulheres que trabalham com EVD e as radiações emitidas. Não foram encontradas evidências de vínculos entre efeitos adversos na gravidez e o uso de ecrãs.
Prevenção dos Impactos na Saúde por EVD
A prevenção dos riscos é fundamental para evitar o aparecimento dos potenciais danos descritos e passa, no mínimo, e de forma resumida, por:
- Desenho ergonómico adequado do posto de trabalho.
- Deteção e avaliação de riscos.
- Condições ambientais adequadas.
- Formação específica dos trabalhadores.
- Manter uma boa forma física.
- Cuidar da postura e respeitar as pausas no trabalho.
- Utilizar a correção ótica adequada para a acuidade visual em caso de deficiências.
- Uma correta vigilância da saúde preventiva protocolada, através de
reconhecimento médico laboral específico para os riscos do trabalho com EVD, para detetar precocemente danos na saúde e identificar trabalhadores especialmente sensíveis. Esta vigilância individual da saúde deverá ser oferecida pela entidade empregadora aos trabalhadores expostos a EVD:
- Antes de iniciar o trabalho com um ecrã de visualização.
- Subsequentemente, com uma periodicidade ajustada ao nível de risco, a critério do médico responsável.
- Quando surgirem perturbações que possam ser atribuídas ao trabalho com ecrãs de visualização.
Em Portugal, o Artigo 131.º do Código do Trabalho estabelece a importância da formação contínua, incluindo a segurança e saúde no trabalho. Embora não detalhe especificamente os EVD, a legislação portuguesa, através de diplomas como o Decreto-Lei n.º 349/93, de 30 de setembro, transpondo uma diretiva comunitária, define as prescrições mínimas de segurança e saúde para o trabalho com equipamentos dotados de EVD, reforçando assim a necessidade de as entidades empregadoras garantirem a formação e as condições adequadas para prevenir os riscos associados. O cumprimento destas normas é essencial para proteger a saúde dos trabalhadores e garantir um ambiente de trabalho seguro e produtivo.
