Chefias ou Líderes? O papel crucial dos gestores intermédios na mudança da cultura de prevenção
A importância dos gestores intermédios na construção de uma cultura preventiva eficaz. Saiba como o investimento em liderança e soft skills impacta a segurança e saúde no trabalho.
· 6 minutos · Segurança no Trabalho
Ao longo da nossa vida, dedicamos uma parte significativa do nosso tempo ao trabalho – entre um terço e um quarto das nossas horas de vigília –, muitas vezes mais do que o tempo que passamos a dormir para recuperar energias. Este facto sublinha a influência profunda que o ambiente de trabalho exerce no nosso bem-estar pessoal.
Se usarmos a Pirâmide de Maslow como referência para analisar os fatores que afetam a satisfação individual, percebemos que a prioridade é ter um emprego que garanta rendimentos para as necessidades básicas. Posteriormente, procura-se a estabilidade e, alcançados estes objetivos, tenta-se satisfazer a necessidade de afiliação, reconhecimento e orgulho de pertença, melhorando as relações laborais.
Nesta cadeia de valor, a primeira pergunta que um empregador pode fazer a si próprio é: o que oferece a sua empresa aos seus colaboradores? Se a única coisa for emprego e salário, há um longo caminho a percorrer. No entanto, para uma empresa que já superou esta fase inicial e procura continuar a avançar, a chave é a "Segurança e Saúde no Trabalho".
As empresas, especialmente aquelas com mais de 10 trabalhadores, estão cada vez mais conscientes da importância de ter gestores intermédios que exerçam uma liderança persuasiva. Esta liderança deve refletir-se num bom funcionamento da organização, gerando satisfação tanto nos clientes como nos trabalhadores, e contribuindo para uma saúde financeira sólida que assegure a continuidade da atividade empresarial a longo prazo.
Para que isto seja uma realidade, o primeiro passo é uma seleção rigorosa das pessoas que vão ocupar cargos de chefia, diretores, gerentes, etc. Estes profissionais devem ser bons comunicadores, ter uma grande capacidade de organização e adaptação à mudança, ser ágeis na resolução de conflitos, proativos na tomada de decisões e, acima de tudo, ter vocação de serviço para com os seus colaboradores. Muitas destas qualidades podem ser inatas, mas as empresas podem e devem trabalhar nas soft skills (competências transversais) através de diversos programas de formação.
Formação Profissional e a Liderança
Qualquer programa que uma empresa planeie implementar deve responder à seguinte questão:
- É possível alcançar uma organização segura e saudável sem abordar as condutas e os comportamentos das pessoas que a integram?
A resposta é não. É essencial trabalhar num programa que integre as medidas convencionais de prevenção de riscos profissionais com técnicas avançadas de segurança baseada no comportamento. Este programa pode ser implementado em várias etapas:
- Diagnóstico inicial: Avaliação do grau da cultura preventiva existente na empresa.
- Plano estratégico: Definição de objetivos, ações e prazos, em concordância com a alta direção.
- Formação contínua: Formação de toda a linha hierárquica, introduzindo novas dinâmicas de trabalho, e formação para todos os trabalhadores com um novo enfoque prático que inclua técnicas de segurança baseada no comportamento. Em Portugal, a formação profissional contínua é um direito e dever, conforme estabelecido no Artigo 131.º do Código do Trabalho, que prevê um mínimo de 40 horas anuais de formação para cada trabalhador.
- Novas dinâmicas de trabalho: Implementação de práticas como:
- Microrreuniões diárias/semanais para planeamento do trabalho.
- Comissões de trabalho para análise de acidentes e incidentes.
- Verificação de condições críticas para a segurança e saúde no trabalho.
- Incentivo à notificação de incidentes com potencial de risco.
- Avaliação periódica: Medição contínua dos resultados e do grau da cultura preventiva.
- Plano de continuidade: Manutenção e melhoria do programa ao longo do tempo.
Inicialmente, é aconselhável focar o programa na linha de comando para reforçar os conhecimentos e ferramentas, permitindo assim integrar a Prevenção de Riscos Profissionais nas suas funções e melhorar as condições de trabalho dos seus colaboradores. Contudo, o programa deve incluir atividades para todos os trabalhadores, a fim de conseguir um maior compromisso em matéria de Segurança e Saúde.
Exemplo Prático de Sucesso
Um exemplo bem-sucedido desta abordagem é o programa "Safety Leaders" da DHL Parcel. Este programa desenvolve dinâmicas de trabalho inovadoras, como a criação de um caderno de observações preventivas. Em 2021, com a colaboração de especialistas em prevenção, toda a linha hierárquica foi formada, alcançando um elevado nível de satisfação e contribuindo para uma cultura de segurança mais robusta.