Danos para a saúde por exposição a poeiras de madeira
Explore os riscos de saúde associados à exposição a poeiras de madeira, incluindo cancro nasossinusal. Conheça as profissões mais afetadas e os sintomas de alerta para uma prevenção eficaz.
· 7 minutos · Segurança no Trabalho
A exposição a poeiras de madeira é um risco ocupacional significativo em diversas indústrias, com a consequência mais grave a ser o cancro da cavidade nasal e dos seios perinasais (adenocarcinoma das fossas nasais e seios perinasais), especialmente associado às madeiras duras. É crucial entender os tipos de madeiras e as atividades de risco para uma prevenção eficaz.
Tipos de Madeira e Trabalhadores Expostos
Botanicamente, as plantas dividem-se em gimnospérmicas e angiospérmicas. As gimnospérmicas, maioritariamente coníferas, são geralmente conhecidas como madeiras macias. As angiospérmicas incluem árvores de folha caduca, designadas como madeiras duras. A classificação de "dura" ou "macia" refere-se à espécie da árvore e não necessariamente à sua densidade.
Trabalhadores em diversas áreas estão expostos a poeiras de madeiras, sejam elas:
- Gimnospérmicas: principalmente poeiras de coníferas (madeiras macias).
- Angiospérmicas: poeiras de árvores de folha caduca (madeiras duras).
População de Risco e Composição das Poeiras
Tanto as madeiras duras como as macias são amplamente utilizadas em setores como fabrico de mobiliário, carpintaria, explorações florestais, serrações e fabrico de contraplacados. As poeiras de madeira são substâncias complexas cuja composição varia com a espécie da árvore, sendo constituídas por celulose, polioses (hemicelulose), lenhina e outras substâncias de menor massa molecular.
A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC) classifica as madeiras duras no Grupo I de agentes cancerígenos para humanos. Esta classificação inclui 34 tipos de madeiras duras, como bétula, álamo, carvalho e teca. Entre as madeiras macias mais comuns encontram-se o abeto, cedro, pinho e sequoia.
Atividades de Risco
O risco de desenvolver "neoplasia maligna da cavidade nasal produzida por exposição a poeira de madeira dura" está associado a várias atividades profissionais, incluindo:
- Fabrico de mobiliário
- Abate de árvores
- Serrações
- Trituração de madeira na indústria papeleira
- Modelagem em madeira
- Prensagem de madeira
- Mecanização e montagem de peças de madeira
- Acabamentos de madeira (contraplacado e aglomerado)
- Lixagem de polímeros de parquet, soalhos, etc.
Fatores de Risco
Os principais fatores de risco para as neoplasias nasossinusais são:
- Exposição ocupacional: Inalação de poeiras de madeira, poeiras metálicas (níquel, crómio, alumínio), trabalho com curtumes e pilhas alcalinas.
- Tabaco.
- Exposição viral: Vírus do Papiloma Humano (subtipos 6, 11, 16 e 18).
- Sinusite crónica.
Efeitos na Saúde
A exposição a poeiras de madeira pode causar sintomas e doenças respiratórias. A consequência mais grave é o cancro da cavidade nasal e dos seios perinasais. Quando as poeiras de madeiras duras são misturadas com outras, o valor limite de exposição aplicável é o das madeiras duras.
Adicionalmente, o trabalho na indústria da madeira pode provocar:
- Rinoconjuntivite
- Urticárias e angioedemas
- Asma
- Alveolite alérgica extrínseca
- Síndrome de disfunção reativa das vias aéreas
- Fibrose intersticial difusa
A IARC classificou as poeiras de madeira no grupo 1 de agentes cancerígenos, indicando uma forte relação entre a exposição a estas poeiras e o surgimento de adenocarcinomas nas fossas nasais e seios perinasais. Este tipo de cancro está quase exclusivamente ligado à atividade laboral e a sua incidência pode ser controlada por medidas preventivas.
Epidemiologia
As neoplasias nasossinusais são raras, representando 0,2-0,8% do total de tumores malignos. Os adenocarcinomas nasossinusais são menos frequentes (8-25%) e, em Portugal, a sua incidência é de 0,19 casos/100.000 habitantes/ano.
Estes adenocarcinomas localizam-se maioritariamente na região etmoidal e na parte superior das fossas nasais (85%), sendo menos comuns noutras cavidades. A idade média de diagnóstico é de 60 anos, e a relação entre sexos é de 4:1 a favor dos homens. Mais de 90% dos adenocarcinomas etmoidais estão relacionados com a exposição a poeiras de madeira, não se observando esta associação com carcinomas escamosos na mesma localização.
Não se considera relevante, em termos de risco de cancro, distinguir a natureza (dura ou macia) ou a granulometria da madeira. O risco aumenta com a inalação de formaldeído, colas e solventes. Pessoas expostas a poeiras de madeira têm um risco 500 vezes superior ao da população masculina não exposta e quase 900 vezes superior ao da população geral. Mais de 90% dos afetados estiveram expostos por mais de cinco anos, com um período de latência médio de 40 anos.
Clínica e Diagnóstico de Adenocarcinoma Nasossinusal
Inicialmente, a doença é assintomática ou manifesta-se com sintomas semelhantes a sinusite crónica, alergias ou polipose nasossinusal. Os sintomas mais comuns incluem:
- Obstrução nasal
- Pressão ou dor nos seios perinasais
- Rinorreia (secreção nasal)
- Epistaxe (hemorragia nasal)
- Anosmia (perda de olfato)
A persistência destes sintomas, ou a sua manifestação unilateral, deve alertar para uma possível malignidade. Em fases avançadas, os sintomas podem incluir dor, lacrimejo contínuo, secreção nasal sanguinolenta, edema e deslocamento do globo ocular, entre outros.
Em casos de localização tumoral noutras regiões, podem surgir sintomas como anestesia, parestesias, dor maxilar ou mandibular, dificuldade em abrir a boca e alterações dentárias.
Estes tumores têm baixa tendência para desenvolver metástases linfáticas ou à distância (menos de 5%). O diagnóstico é, frequentemente, realizado em estádios avançados. A suspeita deve surgir perante síndromes obstrutivos nasais, dor facial, rinorreia ou epistaxe unilaterais e persistentes, que não respondem aos tratamentos habituais e exigem avaliação por um otorrinolaringologista.
O prognóstico destes tumores é reservado, com uma taxa de sobrevivência de 20-50% aos cinco anos, diminuindo significativamente em casos de invasão intracraniana.
Sinais e Sintomas a Vigiar
- Obstrução nasal unilateral
- Alterações do paladar e olfato (perda parcial ou total)
- Hemorragia nasal unilateral e repetida
- Secreção nasal seropurulenta unilateral
- Dor facial unilateral persistente
- Lacrimejo unilateral persistente