Danos na Voz por Sobrecarga Vocal: Prevenção e Cuidados Essenciais
A voz é uma ferramenta de trabalho essencial para muitas profissões. Saiba identificar os riscos, os sintomas de alerta e as formas de prevenir danos por sobrecarga vocal.
· 10 minutos · Segurança no Trabalho
A voz é o som produzido pela vibração das cordas vocais, localizadas na laringe, aquando da passagem do ar proveniente da caixa torácica. A laringe é composta por um conjunto de cartilagens, ligamentos e membranas que suportam as bandas de tecido muscular designadas cordas vocais. A tensão, elasticidade, altura, largura, comprimento e espessura das cordas vocais podem variar, resultando em diferentes efeitos sonoros.
O Aparelho Fonador
O aparelho fonador é constituído pelos diversos órgãos que intervêm na articulação da linguagem, como a laringe, a cavidade bucal, os lábios, a língua, o palato, a mandíbula e a cavidade nasofaríngea. É composto por três grupos de órgãos diferenciados:
- Órgãos de respiração: pulmões, brônquios e traqueia.
- Órgãos de fonação: laringe, cordas vocais e ressoadores (nasal, bucal e faríngeo).
- Órgãos de articulação: palato, língua, dentes, lábios e glote.
Existem três fases na origem da voz:
- Primeira fase: Geração de uma corrente de ar proveniente dos pulmões que ascende pelos brônquios e traqueia. Nesta fase, atuam fundamentalmente o diafragma, a cavidade torácica, a musculatura abdominal e as costas.
- Segunda fase: Ocorre nas cordas vocais. Estas devem estar fechadas, e a passagem do ar através delas produz uma turbulência que transforma o ar em som.
- Terceira fase: O som é enviado através da garganta, nariz e boca.
A voz possui diferentes qualidades acústicas:
- Timbre
- Intensidade
- Tom
- Duração
O timbre é o som característico de cada fonte sonora e o que nos permite distinguir uma pessoa pela sua voz.
A intensidade é a potência com que o ar passa pela laringe e faz vibrar as cordas vocais. Mede-se em decibéis (dB) e varia entre 30 e 120 dB. Conforme a intensidade, podemos diferenciar entre voz baixa (menos de 50 dB), voz conversacional (entre 50 e 65 dB), voz projetada (entre 65 e 80 dB) e gritos (entre 90 e 110 dB).
O tom é a elevação da voz que resulta da frequência das vibrações das cordas vocais. Permite classificar o som numa escala de frequência tonal, de mais agudo a mais grave.
A duração é o tempo que se utiliza na emissão dos sons.
População de Risco e Exigências Vocais
Qualquer pessoa que, no desempenho da sua atividade profissional, utilize a voz de forma intensiva, tendo-a como ferramenta de trabalho, está em risco de sobrecarga vocal e de desenvolver doenças relacionadas com a voz. Na docência, a voz é a principal ferramenta de trabalho e não pode ser substituída. Existem também outros profissionais que dependem da sua voz, como cantores, atores, operadores de telemarketing, entre outros.
O uso profissional da voz pode ser classificado em função de duas características que determinam o seu desempenho em cada trabalho: a qualidade acústica que possui (a beleza da voz) e a capacidade de resistência à fadiga. Por exemplo, para um professor, a qualidade acústica não é tão crucial quanto uma elevada resistência à fadiga, enquanto para um cantor ou ator, a qualidade acústica é predominante. Assim, cada profissão exige da voz propriedades distintas.
Fatores de Risco
Fatores Ambientais
- Grau de humidade (pó, secura excessiva).
- Excesso de frio ou calor.
- Ventilação (correntes de ar, ar condicionado, ventilação deficiente).
- Exposição a irritantes ou outros contaminantes ambientais (contaminação química, biológica e partículas minerais como giz, gesso, terra, etc.).
- Ruído ambiental.
- Qualidade acústica do local (acondicionamento sonoro do local, acústica deficiente).
Fatores Organizacionais
- Sobrecarga de trabalho.
- Ausência de pausas (após 2 horas a falar ou ler em voz alta, podem surgir sinais laríngeos de cansaço. Recomenda-se pausas de 30 a 45 minutos).
- Falta de formação no uso da voz e na prevenção de perturbações vocais.
Fatores Pessoais
- Constituição física e saúde (idade, sexo, constituição física, disfonias na infância, disfunções vocais, faringite, rinite, alergias, anomalias musculoesqueléticas cervicais e ombros, refluxo gastroesofágico, perturbações endócrinas).
- Hábitos tóxicos (fumo do tabaco, álcool).
- Alimentação.
- Medicação.
- Stress.
- Outros (aerossóis bucais, rebuçados e substâncias derivadas do mentol e eucalipto com efeito de retorno).
Efeitos na Saúde: Disfonias e Afonia
Os danos na saúde incluem todas as situações em que se observa uma modificação acústica da voz, provocando a alteração das suas qualidades básicas (timbre, tom e intensidade). Pode afetar a comunicação e impedir o desenvolvimento normal das atividades diárias. Estas alterações são denominadas disfonias. À ausência total da voz denomina-se afonia.
As disfonias classificam-se em:
- Disfonias funcionais: Alterações das qualidades da voz onde apenas a função é afetada, sem lesão identificável. Resultam de uma utilização inadequada da voz e cessam com a correção do uso do órgão.
- Disfonias orgânicas: Provenientes de alterações laríngeas ou de um órgão vizinho que alteram as qualidades básicas da voz. Podem derivar de alterações congénitas (malformações ou membranas) ou adquiridas (tumores, laringite, doenças neurológicas).
- Disfonias mistas: Lesões resultantes de um uso incorreto e persistente da voz, provocando alterações na estrutura microcelular das cordas vocais, que afetam as características biomecânicas. Podem regredir se o abuso vocal for eliminado.
Em pessoas que utilizam a voz como ferramenta de trabalho e apresentam uma disfonia que não desaparece com o repouso, é crucial despistar possíveis lesões laríngeas. As formas de apresentação mais conhecidas são os nódulos, pólipos e edemas.
Os nódulos são um engrossamento dos tecidos da prega vocal. Com o abuso contínuo das cordas vocais, os seus tecidos podem endurecer e transformar-se em lesões chamadas nódulos. Quanto mais prolongado for o abuso vocal, maiores e mais endurecidos se tornam os nódulos. Tendem a surgir em ambas as cordas vocais.
Os pólipos podem ter diferentes formas e surgir numa ou em ambas as cordas vocais. Podem assemelhar-se a uma inflamação similar ao nódulo ou a uma lesão tipo bolha. A maioria dos pólipos é maior que os nódulos, podendo também ser designados como edemas de Reinke ou degeneração polipoide.
As doenças profissionais, como os nódulos das cordas vocais, que resultam do uso continuado da voz, por exemplo em certos setores de atividade, devem ser devidamente prevenidas e acompanhadas no âmbito da saúde ocupacional.
Sintomas de Alerta
Independentemente da origem da disfonia, os sintomas de alerta incluem:
- Rouquidão.
- Necessidade de pigarrear ou tossir.
- Secreções abundantes.
- Sensação de corpo estranho na garganta ou formigueiro.
- Sensação de que a voz não sai ou de que é necessário um esforço para a produzir.
- Falta de controlo da intensidade ou do tom da voz.
- Dor e tensão no pescoço.
- Picadas na zona anterior ou lateral do pescoço.
- Fadiga rápida da voz ao falar ou fraqueza da voz.
- Voz quebrada.
- Voz rouca.
- Dificuldade em manter a voz ao final do dia.
- Dificuldade em ser compreendido.